“Porventura lavra continuamente o lavrador, para semear? ou está sempre
abrindo e desterroando a sua terra? Não é antes assim: quando já tem
nivelado a sua superfície, não espalha a ervilhaça, não semeia o
cominho, não lança nela o melhor trigo, ou cevada no lugar determinado,
ou o centeio na margem? Pois o seu Deus o instrui devidamente e o
ensina” (Is.28.24-26).
Durante todo o período correspondente às narrativas bíblicas, a
agricultura foi uma das principais atividades econômicas. Nela se
ocupava grande parte da população ativa. Por esta causa, a figura do
lavrador e o seu trabalho aparecem com freqüência nas Sagradas
Escrituras, servindo como ilustração para ensinos morais e espirituais
diversos.
O profeta Isaías estava perguntando: Será que lavrador lavra o tempo
todo? Sabemos que não. Pois este é apenas o início do seu trabalho, que
inclui muitas outras tarefas.
A lida no campo pode ser resumida nas seguintes etapas:
1 – Lavrar – Depois de escolher uma boa terra, deve-se prepará-la,
tirando pedras e ervas daninhas, nivelando e revolvendo o solo para que
se torne receptivo e adequado para a semente. Nessa parte entra o
trabalho com o arado, geralmente puxado por uma junta de bois, unidos
pelo jugo.
“Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus” (Lc.9.61).
“Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde
de coração; e achareis descanso para as vossas almas” (Mt.11.29).
2 - Semear – Além de preparar o solo, o homem do campo precisa
selecionar a semente, conforme sua espécie, quantidade e qualidade, e
lançá-la à terra. A semeadura parece um desperdício, uma perda. É como
se a semente fosse jogada fora. Por isso muitos não semeiam. Preferem
comer toda a semente, pois sua visão está apenas no aqui e no agora. O
semeador vê o futuro e por isso renuncia sua semente no presente.
“Pela manhã semeia a tua semente, e à tarde não retires a tua mão; pois
tu não sabes qual das duas prosperará, se esta, se aquela, ou se ambas
serão, igualmente boas” (Ec.11.6).
“Semeai para vós em justiça, colhei segundo a
misericórdia; lavrai o campo da lavoura; porque é tempo de buscar ao
Senhor, até que venha e chova a justiça sobre vós” (Os.10.12).
3 – Esperar a chuva – Por mais que o homem do campo trabalhe, ele também
depende de Deus. Quanto maior a lavoura, maior é essa dependência. O
lavrador sabe que nem tudo está em suas mãos. Sua parte já foi feita,
com muito esforço. Agora é preciso ter fé e paciência.
“Alegrai-vos, pois, filhos de Sião, e regozijai-vos no Senhor vosso
Deus; porque ele vos dá em justa medida a chuva temporã, e faz descer
abundante chuva, a temporã e a serôdia, como dantes” (Joel 2.23).
4 – Germinação – em contato com a água, a semente germina, lançando seus
renovos. É vida que nasce da morte. A semente estava sepultada. Aquele
parecia seu fim, mas Deus realiza o milagre do renascimento. A palavra
que sai da boca de Deus é como a chuva. Ela cai em nossos corações e nos
renova, vivifica e nos faz crescer.
“Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo caindo na terra não
morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” (João 12.24).
“Porque, assim como a chuva e a neve descem dos céus e para lá não
tornam, mas regam a terra, e a fazem produzir e brotar, para que dê
semente ao semeador, e pão ao que come, assim será a palavra que sair da
minha boca: ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e
prosperará naquilo para que a enviei” (Is.55.10-11).
5 – Cuidar da lavoura – O agricultor precisa zelar pela plantação.
Enquanto as plantas são pequenas, é necessário evitar que sejam pisadas.
Em todo o tempo, é importante cuidar para que ninguém as arranque. É
necessário também vigiar por causa das pragas, insetos, aves e animais.
“Apanhai-nos as raposas, as raposinhas, que fazem mal às vinhas; pois as nossas vinhas estão em flor” (Ct.2.15).
6 – Esperar pelo fruto – O lavrador precisa ser paciente, enquanto cuida
da lavoura e aguarda a produção. Antes do fruto, muitas ervas e
árvores produzem flores. É o maravilhoso anúncio do resultado final que
se aproxima. Depois do surgimento dos frutos ainda é preciso esperar que
amadureçam. Enquanto isso, os cuidados aumentam.
“Levantemo-nos de manhã para ir às vinhas, vejamos se florescem as
vides, se estão abertas as suas flores, e se as romanzeiras já estão em
flor” (Ct.7.12a).
“Portanto, irmãos, sede pacientes até a vinda do Senhor. Eis que o
lavrador espera o precioso fruto da terra, aguardando-o com paciência,
até que receba as primeiras e as últimas chuvas” (Tg.5.7).
7 – Colher os frutos – Enfim, chega a época da colheita, como recompensa por todo o labor e espera do lavrador.
“Aquele que sai chorando, levando a semente para semear, voltará com
cânticos de júbilo, trazendo consigo os seus molhos” (Salmo 126.6).
Um dos principais elementos que regem a vida do agricultor é o tempo.
Ele precisa conhecer as estações do ano e agir de acordo com cada uma
delas, plantando, cuidando, esperando e colhendo. Ele não pode inverter
a ordem. Não é possível colher sem ter plantado, a não ser que se
queira roubar na propriedade alheia.
As tarefas agrícolas não podem ser realizadas com muita antecipação nem
com atraso. Na época da chuva não é possível preparar o solo nem lançar a
semente. O resultado seria um grande lamaçal, com a enxurrada
carregando os grãos. Quando chega a época da ceifa, é possível que o
lavrador já esteja muito cansado, mas ele não pode relaxar. Adiar a
colheita pode significar perda total.
“Abundância de mantimento há na lavoura do pobre; mas se perde por falta de juízo” (Pv.13.23).
O ciclo da agricultura é comparável à vida de cada um de nós, com muito
trabalho, fé em Deus, paciência e produtividade. Salomão comparou a
juventude à primavera (Ec.11.10). Nossa existência é dividida em
estações, com tempos adequados para cada propósito. Não podemos ignorar
tal coisa. Não devemos ser precipitados em nossas realizações,
adiantando demais os fatos, nem ser omissos, negligentes ou preguiçosos,
deixando de fazer aquilo que deve ser feito no tempo certo.
“O que ajunta no verão é filho prudente; mas o que dorme na sega é filho que envergonha” (Pv.10.5).
Vejamos alguns exemplos de inversão na ordem natural da vida: Há muitas
crianças trabalhando, quando deveriam estudar e brincar. Por outro
lado, muitos jovens só querem se divertir, quando deveriam também
estudar e trabalhar. Outros antecipam as relações sexuais, a gravidez e a
constituição da família, sem que tenham se preparado para isso. Algumas
vezes, encontramos pessoas bastante idosas que estão ingressando na
faculdade, porque não o fizeram na juventude. Todo tempo é propício à
aquisição do conhecimento, mas se isso acontecer muito tarde, o
indivíduo não colherá o que está plantando.
“Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo
do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo
de arrancar o que se plantou” (Ec.3.1-2).
Muitos fatos ocorrem por força das circunstâncias, causando desordem na
vida. Compreendemos isso. Entretanto, há quem perca seu tempo por
outros motivos: preguiça ou negligência.
É imprescindível que cada um se conscientize do momento em que está
vivendo. Qual é a estação atual? Para muitos de nós, ainda é tempo de
semear, tempo de plantar. Não percamos a oportunidade.
Quando chega o tempo de colher, e não existe fruto aprazível, o
indivíduo começa a murmurar. Acusa Deus, o governo, os pais e a família.
Culpa o destino, revolta-se e se desespera. Entretanto, não se recorda
de sua negligência na época da semeadura.
Existem também aqueles que vivem praticando o mal sem saber que seus
atos são sementes. O que fazem hoje lhes será feito amanhã de modo
multiplicado.
“Falam palavras vãs; juram falsamente, fazendo pactos; por isso brota o
juízo como erva peçonhenta nos sulcos dos campos” (Os.10.4).
“Lavrastes a impiedade, segastes a iniqüidade, e comestes o fruto da mentira” (Os.10.13).
“O que semear a perversidade segará males” (Pv.22.8).
“Pois tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gal.6.7).
Além dos estudos e do trabalho, seja natural ou espiritual, semeamos em
cada ato, palavra ou gesto para com o próximo. Cada semente, boa ou má,
se multiplicará e retornará para nós no tempo da ceifa.
Cabe, portanto, a cada um de nós, escolher bem as sementes para que a
nossa colheita seja excelente. Façamos hoje o deve ser feito, pois
amanhã pode ser muito tarde.
“E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido” (Gal.6.9).
Queremos colher muito, mas semeamos pouco. Somos econômicos na semeadura
e ambiciosos na colheita. Fizemos algo para Deus ou para o próximo e
achamos que foi suficiente. Não se acomode. Trabalhe mais. Semeie mais.
“Mas digo isto: Aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e aquele
que semeia em abundância, em abundância também ceifará” (IICo.9.6).
“Eu vos escolhi a vós, e vos designei, para que vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça” (João 15.16).
Anísio Renato de AndradeBacharel em Teologia
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